Marcos históricos de São Paulo abrigam empreendedores de nicho

Mais do que centros de compras, endereços como a Galeria do Rock, a feira de artes da Benedito Calixto e o Mercado de Pinheiros exibem força de patrimônio que impulsionam as atividades comerciais. São marcos históricos e culturais, que atraem clientela também turística.

O fato de cada um dos lugares abrigarem empreendedores em atividades correlatas poderia soar apenas como canibalismo comercial. Mas há vantagens nisso, avalia o diretor-superintendente do Sebrae-SP, Luís Sobral. “A Galeria do Rock é um shopping de música, isso fortalece a marca. Se você quer comprar um bom disco, você vai lá”, diz Sobral, segundo quem um plano de negócios pode ajudar a driblar a concorrência.

Emblemáticos, esses centros abrigam empreendedores fiéis há décadas, como os que seguem abaixo, escolhidos pelo Estado para, com suas histórias, homenagear a cidade por seu aniversário.

 

Luiz Calanca, da loja de vinis Baratos Afins, na Galeria do Rock
Luiz Calanca, da loja de vinis Baratos Afins, na Galeria do Rock

 

40 ANOS COM UMA OBSESSÃO: O VINIL

Por Mateus Apud

Na Galeria do Rock desde 1978, a Baratos Afins é hoje uma das poucas lojas remanescentes de discos de vinil. Fundada por Luiz Calanca, a Baratos Afins também foi uma das primeiras gravadoras independentes do Brasil. Calanca lembra que a ideia de abrir uma loja veio quando sua mulher estava grávida, ele estava com pouco dinheiro e ainda assim gastou o que tinha numa loja de discos.

“Era só um sonho, talvez uma pira, mas fiquei pensando que eu levei um monte de disco, gastei dinheiro e achei um negócio bom para o vendedor e não para mim. Eu fiquei com aquela ideia na cabeça”, lembra.

Foi quando largou o emprego como farmacêutico – e quase foi largado no casamento. “Minha mulher, prestes a dar à luz, falava que eu tinha pirado. Mesmo assim insisti.” Calanca começou vendendo a própria coleção e aos poucos começou a investir em coleções especiais. Com o boom das lojas de discos, chegando a 64 na Galeria do Rock, Calanca começou a gravar edições exclusivas em 1982 e lançou o Selo Baratos Afins.

Há 40 anos no mercado, já produziu 104 álbuns de vinil e 85 CDs. A primeira produção de sua gravadora foi o álbum Singin’ Alone, de Arnaldo Baptista (ex-Mutantes). Depois vieram bandas de metal, punk e rock, como Ratos de Porão, As Mercenárias, Golpe de Estado e Salário Mínimo. E também artistas consagrados, entre eles Rita Lee, Itamar Assumpção, Tom Zé, Jorge Mautner e Serguei.

Tanto tempo de mercado fez Calanca ver diversas lojas serem abertas e fechadas. Atribui sua permanência ao fato de sempre ter apostado no vinil como produto principal. Mesmo vendendo CDs e DVDs, ficou conhecido como “o louco do vinil” – e viu esse mercado renascer de uns anos para cá. “Eu aceitava vinil como forma de pagamento, sempre acreditei nele.”

Na loja, são mais de 100 mil exemplares, selecionados por Calanca, que agora divide o balcão com a filha e continua dando expediente todos os dias.

Por dentro da Galeria do Rock

Com sete andares, o Centro Comercial de Grandes Galerias foi inaugurado em 1963 para atender à alta demanda por comércio na região central. No final da década de 1960, no entanto, a galeria perdeu lojistas para empreendimentos das zonas sul e oeste.

Foi na década de 1980 que o local ganha atenção com a popularização das lojas de discos, mas a administração era militar e a cultura alternativa das tribos locais não era bem vista. Apenas em 1993, sob a direção do síndico Antônio de Souza Neto, mais conhecido como Toninho, cai a proibição às lojas de cultura alternativa e as lojas voltadas para o rock se tornam soberanas. Só então o local ganha o apelido de Galeria do Rock.

São 450 estabelecimentos, entre lojas de CDs, skates, vestuário, estúdios de piercing e tatuagem, além de salões de beleza. Pelo endereço, que ganhou em 2001 o Instituto Galeria do Rock, circulam 25 mil pessoas durante a semana e 36 mil nos finais de semana.

ONDE. Av. São João, 439, República

 

Maria Ramalheiro (à dir.) e sua filha, Carla Cristina, na feira da Praça Benedito Calixto
Maria Ramalheiro (à dir.) e sua filha, Carla Cristina, na feira da Praça Benedito Calixto

 

TRÊS DÉCADAS E DUAS GERAÇÕES NAS ARTES

Por Letícia Ginak

São mais de 1.400 sábados no movimento de monta e desmonta de porcelanas, cristais e semijoias, debaixo de sol ou chuva, calor ou frio. Maria Ramalheiro expõe seus garimpos há 30 anos na Feira de Artes da Praça Benedito Calixto, zona oeste. “Tenho jogos de xícaras da Checoslováquia e do Japão, por exemplo”, conta.

A aquisição da mercadoria pode acontecer, inclusive, na praça, durante a feira. “Muitas pessoas vêm até aqui para nos oferecer antiguidades. É um processo de curadoria.” E é mesmo comum se deparar com a imagem de expositores com suas lupas em mãos analisando objetos de todos os tipos sem pressa.

A peça mais cara de Maria, no dia em que o Estado visitou a feira, é um jogo de xícaras de chá e bule no valor de R$ 900. Falar em faturamento é algo complicado quando se trata de antiguidades. “Não tem como prever. Tem sábados em que vendo apenas uma peça e isso já valeu o dia. Mas, se não desse dinheiro e não tivesse movimento eu não estaria aqui há 30 anos”, diz, convicta, e gargalha logo em seguida. Segundo ela, sua clientela tem compradores de Fortaleza (CE) a Roma, na Itália.

A barraca ao lado, que representa em teoria a concorrência, é ocupada há dois anos pela filha, Carla Cristina Gavronski. “Frequento a feira desde os seis anos de idade, acompanhando a minha mãe. Já que estava aqui para ajudá-la, resolvi também ter a minha própria banca”, explica. A mãe completa dizendo que há “muitas gerações de expositores na feira.” Para expor na praça, é preciso pagar uma mensalidade de R$ 105.

Sobre as novas lojas que se instalam cada vez mais ao redor, mãe e filha não enxergam problema algum na mistura entre o antigo e o moderno. E o saldo de tantos sábados dedicados à feira, garantem, é positivo. “Estar aqui é viciante”, finaliza Maria.

Por dentro da feirinha da Benedito Calixto

Criada há 30 anos, a feira conta atualmente com 320 expositores, divididos em três principais setores: antiguidades, alimentação e artesanato. De acordo com a Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto, responsável pela manutenção da feira e pela ponte com a prefeitura, passam pelo local de 7 a 10 mil pessoas todos os sábados em busca de valiosos itens.

Nos últimos anos, a praça foi emoldurada por galerias de arte e lojas colaborativas que vendem o que há de mais moderno em arte, roupas e acessórios. A feira acontece  aos sábados, das 9h às 19h.

ONDE. Praça Benedito Calixto, s/nº, Pinheiros

 

Alexandre dos Santos, dono da peixaria Nossa Senhora de Fátima, no Mercado de Pinheiros
Alexandre dos Santos, dono da peixaria Nossa Senhora de Fátima, no Mercado de Pinheiros

 

NEGÓCIO NASCEU COM PEIXES NA RUA

Por Ana Paula Boni

À frente da peixaria Nossa Senhora de Fátima, Alexandre dos Santos, de 39 anos, vem de uma linhagem de empreendedores ou, como prefere dizer, de um só, no singular. “Empreendedor mesmo foi meu vô.” Em sua família, foi o português Porfírio que começou vendendo pescados, ainda na década de 1950, percorrendo ruas da zona leste com cestas nas costas. O negócio cresceu e foi parar dentro do mercado da Vila Formosa, em 1963, e depois no mercado da Penha, em 1967, cada loja tocada por um dos filhos do seu Porfírio.

Foi José Porfírio, pai de Alexandre, que acaba indo para o Mercado de Pinheiros, em 1997, quando o local “estava falindo”. “Meu pai conta que o pessoal aqui não entendia em que região da cidade estava.” Numa época em que o entorno do mercado era cravejado de prostíbulos e botequins, seu pai resistiu, ampliou o tamanho do box (hoje com 86 metros quadrados) e viu o mercado engrenar.

À frente da operação, Alexandre viu a segunda revolução no mercado, a partir de 2014, com a chegada de chefs de cozinha de renome. Checho Gonzáles foi o pioneiro, quando abriu naquele ano a Comedoria Gonzáles, em frente à peixaria. Ia todo dia no balcão de Alexandre ver o que tinha de mais fresco.

Depois vieram Rodrigo Oliveira, do Mocotó, os boxes do Instituto Atá, de Alex Atala, e o mercado viu outro tipo de público circular por ali. “Eu já tinha muita clientela, mas de quatro anos para cá meu faturamento crecseu 40% com as vendas no balcão”, conta Alexandre, que vende de 300 kg a 600 kg de pescados por semana.

Para ter de robalo a centolla no balcão, ele trabalha com fornecedores diferentes e foca na entrega em domicílio para pessoas físicas. “Restaurantes pedem em grande quantidade, mas com a pessoa física o risco é menor.”

Por dentro do Mercado de Pinheiros

O Mercado Municipal de Pinheiros foi aberto em 1º de março de 1971 com cerca de 40 boxes, que hoje são agrupados em dois ou mais. Tombado, o imóvel passou por uma reforma nos anos 2000, quando o piso interno foi trocado e o deque externo, instalado. Mas foi a partir de 2014 que o local teve fama catapultada na cidade com a chegada dos boxes dos chefs Alex Atala, Checho Gonzáles e Rodrigo Oliveira.

Também ajudou a oxigenar o lugar com novo público a abertura da  estação Faria Lima do Metrô, em 2010. Hoje, circulam ali cerca de 8 mil pessoas por mês.

ONDE. R. Pedro Cristi, 89, Pinheiros

Fonte: Estadão PME